Dr. Matheus Vanzin Fernandes

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    Dr. Matheus Vanzin Fernandes

    Gastroenterologista, Hepatologista e Endoscopista

Na minha prática clínica de consultório, os pacientes que me procuram com hepatite autoimune tem quase sempre a mesma história: pessoas sem nenhum sintoma (ou com sintomas leves e inespecíficos, como cansaço), mas que apresentam alterações de enzimas hepáticas, principalmente TGO e TGP, de longa data.

A hepatite autoimune é uma doença inflamatória crônica do fígado em que o próprio sistema imunológico, que deveria proteger o organismo, passa a atacar as células hepáticas. Em palavras simples, o que ocorre é que a nossa imunidade, que deveria nos proteger de agentes externos agressores (como vírus, bactérias, parasitas…), sofre uma perturbação e passa a atacar o próprio fígado. Esse processo pode ser silencioso por muitos anos, sendo diagnosticado através das alterações de exames de sangue, como mencionei acima, ou se manifestar de forma mais intensa, através de um quadro de hepatite aguda com risco de insuficiência hepática, que ocorre quando o fígado entra em colapso.

A hepatite autoimune é uma doença que não tem cura, mas tem tratamento. O objetivo do tratamento é induzir a remissão da doença, de modo a impedir a inflamação sustentada do fígado. Quando não tratada de forma adequada, a doença pode evoluir para complicações graves como fibrose, cirrose e até câncer de fígado (carcinoma hepatocelular – CHC).

Apesar de não ser tão conhecida quanto outras hepatites, a hepatite autoimune é uma causa relativamente frequente de elevação persistente das enzimas do fígado e precisa ser diagnosticada e acompanhada por um especialista em Hepatologia.

O que é hepatite autoimune e por que ela acontece?

Para enterdermos melhor o que é a hepatite autoimune, vamos fragmentar o nome da doença. O primeiro termo (“hepatite”) significa inflamação do fígado; já o segundo termo (“autoimune”) aponta para um componente da própria imunidade, por isso “auto(própria)” “imune(imunidade)”. Em linhas gerais, essa doença ocorre quando o sistema imunológico perde a capacidade de reconhecer o fígado como parte do próprio corpo e passa a atacá-lo de forma contínua.

Esse ataque é grave, pois provoca:

  • Inflamação crônica do fígado;
  • Lesão das células hepáticas;
  • Elevação das enzimas TGO (AST) e TGP (ALT);
  • Formação progressiva de cicatrizes (fibrose);
  • Risco de evolução para cirrose e câncer de fígado.
hepatite autoimune

Ainda não existe uma causa única definida, mas sabemos que a doença surge a partir da combinação de:

  • Predisposição genética;
  • Fatores ambientais (infecções virais, alterações hormonais);
  • Desregulação do sistema imunológico.
hepatite autoimune

Diferente das conhecidas hepatites virais (hepatite A, hepatite B, hepatite C), que são inflamações do fígado causadas por vírus, a hepatite autoimune não é contagiosa. Além disso, essa doença não está relacionada ao consumo de álcool.

Quem tem mais risco de desenvolver hepatite autoimune?

Embora possa ocorrer em qualquer idade e em ambos os sexos, a hepatite autoimune é mais comum:

  • Em mulheres;
  • Entre a adolescência e a meia-idade;
  • Em pessoas com outras doenças autoimunes, como:
    • Tireoidite de Hashimoto;
    • Lúpus;
    • Artrite reumatoide;
    • Doença celíaca;
    • Vitiligo.

Ter uma doença autoimune não significa que a pessoa irá desenvolver hepatite autoimune, mas aumenta a vigilância clínica.

O que uma pessoa com hepatite autoimune pode sentir no dia a dia?

Um dos grandes desafios da hepatite autoimune é que, em muitos casos, ela evolui de forma silenciosa. Não é raro o diagnóstico acontecer após um exame de rotina mostrar alteração de TGO e TGP. Aqui no meu consultório, eu já atendi casos de hepatite autoimune em pacientes sem sintomas e com alterações leves de TGO e TGP por mais de 7 anos, que não haviam sido adequadamente investigadas previamente.

Embora não seja comum a presença de sintomas nas fases iniciais da doença, quando há manifestações, as queixas mais comuns incluem:

  • Cansaço persistente e desproporcional às atividades do dia;
  • Falta de disposição e queda de rendimento físico e mental;
  • Desconforto ou peso no lado direito do abdome;
  • Náuseas frequentes;
  • Dores articulares sem causa aparente;
  • Coceira no corpo;
  • Escurecimento da urina;
  • Pele e olhos amarelados (icterícia), em fases mais ativas.

Em quadros mais agressivos, a doença pode se manifestar de forma súbita, caracterizando uma hepatite aguda, com risco de evolução para uma condição mutio grave, que é a insuficiência hepática aguda. Nesses casos mais súbitos, o paciente geralmente costuma se apresentar de forma mais sintomática, com icterícia intensa (amarelão no branco dos olhos e na pele), colúria (urina escura, em tom de “Coca-Cola”), hipocolia (fezes mais esbranquiçadas), prurido (coceira pelo corpo), além de alterações importantes nos exames de sangue.

Alteração de TGO e TGP: quando desconfiar de hepatite autoimune?

A simples elevação de TGO e TGP não configura o diagnóstico de hepatite autoimune. As alterações de TGO e TGP significam apenas que há dano nas células do fígado, sendo que as causas para esse dano precisam ser melhor avaliadas através de uma investigação médica detalhada. Eu explico melhor sobre isso em outro texto aqui do meu site: Alteração de TGO e TGP: Preciso me Preocupar?

Diante desse cenário, o diagnóstico de hepatite autoimune se torna uma possibilidade em pacientes, principalmente mulheres, com elevações persistentes de TGO e TGP, com avaliação negativa para hepatites virais (realizada através de exames de sangue) e com ausência de história de consumo significativo de álcool. Mas é importante destacar que existem ainda outras doenças que podem cursar de forma assintomática ou com sintomas vagos e inespecíficos e que alteram o TGO e TGP; cito aqui a hemocromatose, a doença de Wilson, a deficiência de alfa-1-anti-tripsina, entre outras.

Dessa forma, a dica que eu dou para pacientes que estão apresentando alguns dos sintomas acima descritos ou que estão com alterações de TGO e TGP é procurar atendimento médico especializado na figura de um médico Hepatologista, para que uma avaliação pormenorizada possa ser conduzida.

Como é feito o diagnóstico da hepatite autoimune?

O diagnóstico não depende de um único exame, mas da combinação de dados clínicos, laboratoriais e histológicos.

De forma geral, a investigação inclui:

1. Exames de sangue

Os exames de sangue nos ajudam de duas formas:

  1. Descartar outras doenças que possam afetar o fígado e causas alterações de TGO e TGP; cito como exemplo as hepatites virais, a colangite biliar primária, a hemocromatose, a doença de Wilson…
  2. Existem alguns marcadores de sangue que falam a favor do diagnóstico de hepatite autoimune, a saber o aumento das imunoglobulinas e a pesquisa positiva para alguns autoanticorpos (FAN, anti-músculo liso, anti-LKM1).

2. Exames de imagem

  • Ultrassom abdominal: é o primeiro exame de imagem a ser solicitado na maioria dos casos, por ser não invasivo, não conter radiação, não necessitar do uso de contrate e trazer muitas informações relevantes a respeito do tamanho, formato e contorno do fígado, além de permitir descartar a presença de lesões hepáticas focais (nódulos). O ultrassom também nos ajuda com informações referentes à vascularização do fígado, bem como avaliar a via biliar (sistema de drenagem hepática).
  • Elastografia hepática: todas as doenças que geram inflamação sustentada do fígado, e a hepatite autoimune é uma delas, podem evoluir com fibrose hepática, ou seja, a criação de cicatrizes no fígado. A fibrose hepática costuma evoluir em diferentes estágios: F0 (fígado normal); F1, F2 e F3 (fibrose progressiva); e F4 (cirrose). O exame de elastografia hepática é um exame fundamental na prática clínica dos pacientes com hepatite autoimune justamente por isso: de forma não invasiva, sem radiação e sem contraste, nós conseguimos estimar o grau de fibrose do fígado do paciente e adaptar o melhor tratamento para cada caso.
  • Outros exames de imagem podem ser necessários em casos isolados, como a tomografia e a ressonância.

3. Biópsia hepática

Nos casos onde a história clínica, associada com a avaliação laboratorial e de imagem acima descrita, é compatível com a possibilidade de hepatite autoimune, exista a indicação da biópsia do fígado para:

  • Confirmar o diagnóstico
  • Avaliar o grau de inflamação
  • Determinar a presença e a extensão da fibrose ou cirrose

A biópsia hepática é realizada a partir de uma anestesia local, de modo a garantir que o paciente não sinta dor durante o procedimento. Após isso, o médico radiologista insere uma agulha fina, através da pele do paciente e, orientado pela imagem de um ultrassom, essa agulha é guiada até o fígado de modo a retirar um pequeno pedaço dele para análise microscópica. O procedimento, quando bem indicado, não costuma apresentar complicações e tem um valor extremamente importante na condução do tratamento dos pacientes com hepatite autoimune.

Hepatite autoimune pode evoluir para fibrose?

Sim! Conforme eu expliquei acima, na seção de elastografia hepática, quando a inflamação persiste ao longo do tempo, o fígado tenta se regenerar, formando tecido cicatricial. Esse processo é chamado de fibrose hepática. A fibrose pode ser silenciosa e evolui gradualmente se a inflamação não for controlada, passando por 4 estágios de evolução (F1, F2, F3 e F4, sendo esse último conhecido como cirrose hepática).

É importante destacar que a fibrose hepática é potencialmente reversível nos estágios iniciais, por isso o tratamento precoce faz toda a diferença no prognóstico dos pacientes.

Cirrose na hepatite autoimune: quando o fígado perde sua arquitetura normal

Quando ocorre um atraso no diagnóstico da hepatite autoimune ou sem o tratamento adequado, a inflamação persistente do fígado faz com que a fibrose progrida para cirrose, que é a substituição extensa do tecido hepático normal por cicatrizes, ou seja, o estágio último da fibrose.

Na cirrose associada à hepatite autoimune, o paciente pode apresentar:

  • Inchaço abdominal (ascite);
  • Inchaço nas pernas (edema);
  • Varizes no esôfago com consequente risco de sangramento digestivo – vômitos de sangue (hematêmese), sangue nas fezes (melena);
  • Confusão mental, inversão do ciclo sono-vigília (dorme de dia, fica acordado de noite), agitação, agressividade (encefalopatia hepática);
  • Risco de carcinoma (câncer) de fígado.

Mesmo nesse estágio, o controle rigoroso da doença é essencial para evitar complicações e melhorar a sobrevida.

Hepatite autoimune e câncer de fígado (CHC): existe relação?

O risco de um paciente com hepatite autoimune isolada evoluir para carcinoma hepatocelular (CHC – câncer de fígado) é muito baixo. Esse risco se torna mais importante no pacientes com hepatite autoimune não tratada e que evoluem para cirrose. Por isso, pacientes com hepatite autoimune + cirrose devem realizar:

  • AFP (exame de sangue marcador de carcinoma hepatocelular) a cada 6 meses;
  • Ultrassom de fígado a cada 6 meses;
  • Monitoramento regular com médico Hepatologista.

O diagnóstico precoce do carcinoma aumenta significativamente as chances de tratamento eficaz e curativo. Por isso, o rastreio a cada 6 meses é importante, pois permite identificar os casos logo no início, aumentando drasticamente a chance de cura.

Também é importante destacar que qualquer paciente com cirrose, independentemente da doença ter sido causada por hepatite autoimune ou por outra condição (como álcool, por exemplo), está em risco aumentado de carcinoma hepatocelular e deve, portanto, seguir o rastreio a cada 6 meses com AFP (exame de sangue) e US (ultrassom).

Tratamento da hepatite autoimune: é possível controlar a doença?

Sim. A hepatite autoimune é uma doença tratável e controlável, desde que o paciente siga corretamente o acompanhamento médico.

O pilar do tratamento envolve o uso de medicamentos imunossupressores, ou seja, remédios para baixar a imunidade. Para entender a lógica aqui, é preciso relembrar o que expliquei no início desse artigo: a hepatite autoimune é uma doença onde a própria imunidade ataca o nosso fígado. Dessa forma, o tratamento consiste em baixar a imunidade do paciente de modo a garantir:

  • Redução da inflamação;
  • Normalização das enzimas do fígado;
  • Prevenção da fibrose, da cirrose e do carcinoma hepatocelular.

Ajustes individualizados conforme resposta e efeitos colaterais podem ser necessários de modo a otimizar a resposta dos pacientes. Em muitos casos, o tratamento é prolongado ou contínuo, e a suspensão sem orientação médica pode levar a recaídas graves e risco de complicações sérias.

Acompanhamento a longo prazo: por que ele é tão importante?

Mesmo quando o paciente está bem e com exames controlados, a hepatite autoimune exige:

  • Consultas regulares;
  • Monitoramento laboratorial periódico;
  • Avaliação da fibrose ao longo do tempo.

Conforme já destacado acima nesse texto, lembrem que eu expliquei a a hepatite autoimune pode evoluir de forma silenciosa. Mesmo pacientes em tratamento e estáveis há algum tempo, podem apresentar falha secundária do tratamento, com necessidade de ajustes de dose ou troca de medicamentos. Esse cuidado contínuo é o que permite uma vida normal, com boa qualidade e menor risco de complicações.

Quando procurar um hepatologista?

Você deve procurar avaliação especializada se:

  • Tem alteração persistente de TGO e TGP sem causa definida;
  • Já recebeu diagnóstico de hepatite autoimune;
  • Apresenta sinais de doença hepática crônica;
  • Tem outra doença autoimune associada e alterações no fígado.

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado mudam completamente a história natural da hepatite autoimune.

Se você chegou até aqui, provavelmente está buscando informações confiáveis sobre a saúde do seu fígado. A hepatite autoimune é uma condição séria, mas que pode ser controlada com acompanhamento especializado. Um cuidado individualizado faz toda a diferença no prognóstico e na qualidade de vida. Em caso de dúvidas, deixe um comentário abaixo!

Matheus Vanzin Fernandes – Doctoralia.com.br

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